24 de abril - Dia do chimarrão
Nota: A postagem em questão não quer oferecer uma rixa ou coisa do gênero entre paranaenses e sul-riograndenses. A cultura gaúcha é única e além do mais, é necessário comemorar essa tradição e esses costumes, tão comuns do sul do Brasil e que a história mostra em suas páginas.
O dia 24 de abril de 2003 é a data que marca o dia do chimarrão no Rio Grande do Sul. Tal data marca a lei 11.929 de 20 de junho de 2003, estabelecendo o chimarrão (e o churrasco) como símbolos do Rio Grande do Sul.
Com relação a isso, é necessário voltar nas páginas da história da erva-mate e redescobrir suas origens e os caminhos que levaram o chimarrão até o Rio Grande do Sul. Um dos pontos de partida, e por que não dizer, um ponto importante, é o consumo de erva-mate pelos indígenas paranaenses e que mais tarde foram alvos da catequização dos jesuítas espanhóis na Província del Guayrá, atual cidade de Guaíra no Paraná.
É necessário também destacar que as missões jesuíticas foram fortes também no Paraguai (definindo mais tarde o nome científico da erva-mate pelo explorados francês Auguste de Saint-Hilaire - Ilex-paraguariensis).
Em sua História econômica do mate, o autor Temístocles Linhares discorre os pontos principais caminhos da erva-mate, até ela se tornar símbolo de uma economia poderosa no século XIX e colocando em evidência o então recém-nascido Estado do Paraná, como principal produtor, exportador e difusor da erva e da bebida tão bem acolhida até hoje pelos sulistas brasileiros (e argentinos, uruguaios, paraguaios, chilenos).
Voltando novamente no tempo, foram os índios tupi-guarani que primeiro usaram a erva para bebida. Usavam um porongo para depositar a erva, colocavam água quente ou fria e utilizavam de um canudo de taquara com um engenhoso trançado na base para sorver a bebida da erva. A partir disso, o uso foi difundido pelos jesuítas (que num primeiro momento a condenavam e lhe deram a alcunha de "erva-do-diabo", uma vez ela sendo diurética, fazia com que os indígenas saíssem no meio da missa para urinar, um ato desrespeitoso na visão deles), bem como a produção que só cresceu e se tornou uma atividade comum no Paraná, principalmente no litoral.
A economia ervateira paranaense por si só se consolidou no século XIX, quando os engenhos de mate se fizeram frequentes no litoral (Morretes, Antonina) e no planalto, com destaque para Curitiba, região que abrigava muitos ervateiros. Um dos produtores que obteve destaque na economia ervateira no século XIX foi Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul.
O Barão do Serro Azul foi um homem à frente do seu tempo. Aliou tecnologia e sua visão inovadora sobre negócios e economia. As primeiras máquinas de beneficiamento de erva-mate foram feitas pelo engenheiro Francisco Camargo Pinto - bolsista do Imperador D. Pedro II - que estudou na Europa e trouxe inovações tecnológicas para o Brasil. As novas máquinas de beneficiamento de mate (até então o mate era ainda produzido de forma "primitiva" utilizando a técnica de Francisco Alzagaray, argentino, que por volta de 1820, chegou à 5ª comarca de São Paulo, até então, para ensinar as pessoas, o real beneficiamento de mate) trouxeram uma produção mais rápida e em larga escala, em relação a produção antiga, utilizando-se pilões e moinhos.
Barão do Serro Azul
Grande produção, era necessário exportar. No começo, as exportações de erva-mate eram feitas pelos tropeiros parananenses, que a transportavam em surrões (bolsas feitas de couro, que quando secas, condicionavam melhor o mate para ser transportado) no lombo de burros de carga pelos caminhos traçados pelas tropas até chegar ao porto de Paranaguá e de lá, ser exportado para a Argentina (nosso principal consumidor) e para outros países como Chile e Uruguai.
Mais uma vez, com o advento da tecnologia, surgiu a estrada de ferro por volta dos anos 1850, o que facilitou ainda mais o transporte de erva-marte, agora acondicionada em barricas de madeira e transportadas com mais agilidades e escoadas pelo porto de Paranaguá.
Rótulos de barricas de erva-mate
Em linhas gerais, o mate proporcionou a emancipação politica do Estado paranaense do Estado de São Paulo (1853), colocou o Paraná (e por que não dizer o Brasil) em evidência na exportação do produto para a Argentina e difundiu a bebida originária dos indígenas do Paraná espanhol para o restante do sul do país.
Se chegamos a uma conclusão sobre isso, é possível perceber que a erva-mate e o chimarrão são tipicamente paranaenses, bem como o churrasco e as tradições gaúchas levadas pelo sul do Brasil através dos tropeiros que saíram daqui do Paraná.
As páginas da história paranaense são ricas e cheias de detalhes preciosos sobre a erva-mate. Deixemos de lado as rixas e sorvemos juntos um belo trago de chimarrão!
Habemus Mate!
Para saber mais sobre a erva-mate, recomenda-se:
LINHARES, Tenístocles. História Econômica do Mate. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1969.
COSTA, Samuel Guimarães. A Erva-Mate. Curitiba: Editora UFPR, 1989.
PADIS, Pedro Calil. Formação de uma economia periférica: O caso do Paraná. Curitiba: IPARDES, 2006.
SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. História da Alimentação no Paraná. Curitiba: Editora Juruá, 2007.
CARVALHO, Marcelo da Silva. Economia ervateira paranaense: O papel do Barão do Serro Azul (1878-1894). Curitiba: Trabalho de Conclusão de Curso - Graduação em História - Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2011.



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